Boletim Técnico do Heliel
Churrasqueiras e Lareiras em Edifícios — engenharia para quem decide
Edição nº [001]   ·   [mês/ano]
Tema da edição

Quando o cliente pede garantia de que nunca haverá fumaça

Um caso sobre memorial técnico, exaustão de churrasqueiras e o cuidado necessário para não transformar projeto em promessa absoluta.

O caso da edição

Recebi recentemente uma solicitação técnica de uma grande corporação envolvida em um empreendimento residencial.

Não era uma pergunta simples, do tipo: “qual exaustor usar?” ou “qual deve ser o diâmetro da chaminé?”. Era uma lista bem estruturada, enviada depois de uma análise feita por especialistas de instalação.

Eles queriam saber se o nosso escopo contemplava análise de PPCI, capacidade de captação e extração de fumaça, vazão de exaustão, velocidade do ar no duto, perda de carga total, condições de uso consideradas no dimensionamento e, principalmente, uma comprovação de que não haveria retorno de fumaça, refluxo entre pavimentos ou interferência em unidades vizinhas.

Esse tipo de pergunta me chama atenção.

Por um lado, é muito positivo. O cliente está tentando entender o sistema antes da obra andar. Isso é bem melhor do que chamar alguém depois, com o prédio entregue, condomínio reclamando, apartamentos com cheiro de fumaça e todo mundo tentando descobrir onde começou o problema.

Por outro lado, existe um cuidado importante: não dá para transformar projeto técnico em promessa absoluta de comportamento.

Churrasqueira, coifa, duto, exaustor, usuário, vento, manutenção e execução não são peças independentes. Funcionam como sistema.

Projeto não é chute. Projeto tem cálculo, critério e responsabilidade. Mas projeto também não é promessa mágica. Ele trabalha dentro de premissas.

Na resposta, deixei claro que os pontos técnicos podem e devem ser tratados.

A análise de PPCI deve considerar a instrução técnica ou normativa do Corpo de Bombeiros pertinente à região da obra. A capacidade de captação e extração de fumaça entra no memorial descritivo e pode ser detalhada no projeto executivo. A vazão de exaustão deve ser contemplada no projeto. A velocidade do ar no duto e a perda de carga total fazem parte do memorial de cálculo e podem ser fornecidas ao cliente, quando solicitado.

Até aqui, estamos falando de engenharia: premissas, cálculo, compatibilização e documentação.

O ponto mais delicado estava na pergunta sobre a “comprovação de que não haverá” retorno de fumaça, refluxo entre pavimentos ou interferência nas unidades vizinhas.

É aí que eu acho que o profissional precisa ter cuidado.

O projeto pode ser desenvolvido com a premissa técnica de evitar esses problemas. Pode considerar geometria dos dutos, vazão prevista, perda de carga, simultaneidade de uso, tipo de churrasqueira, caminho da fumaça, condições de captação, descarga, acionamento e operação.

Também pode prever manual de uso, orientação ao proprietário, compatibilização com elétrica, PPCI e arquitetura.

Tudo isso aumenta muito a chance de o sistema funcionar bem.

Mas não é tecnicamente correto prometer que nunca haverá retorno de fumaça em qualquer condição.

Na prática, o desempenho depende:

Da execução conforme projeto.

Da instalação correta dos equipamentos.

Da manutenção periódica.

Do uso adequado pelos moradores.

De não haver alterações futuras sem análise técnica.

E, em alguns casos, até das condições climáticas.

Uma churrasqueira usada com excesso de carga, grelha mal posicionada, exaustor desligado, duto alterado em reforma ou terminal de descarga mal executado pode apresentar comportamento diferente daquele previsto no projeto.

E não é só o usuário que interfere. A obra também interfere.

Uma mudança pequena de seção, uma curva executada diferente, uma redução indevida, uma passagem mal resolvida por laje, um fechamento com material incompatível com o TRRF previsto ou uma decisão tomada em campo sem passar pela compatibilização podem comprometer o resultado.

O ponto técnico

A frase “não haverá retorno de fumaça” parece simples, mas carrega um compromisso técnico muito grande.

Eu prefiro uma formulação mais responsável:

O sistema foi dimensionado para operar sem retorno de fumaça dentro das condições de projeto, execução, uso e manutenção previstas.

Pode parecer apenas uma diferença de linguagem, mas não é.

Essa frase deixa claro que existe projeto, existe critério e existe responsabilidade técnica. Mas também deixa claro que o desempenho depende do conjunto.

Se o projeto executivo indicou uma condição e a obra executou outra, isso precisa aparecer.

Se o exaustor foi substituído por outro equipamento sem reavaliar curva, vazão, ruído e perda de carga, isso precisa aparecer.

Se o morador usa a churrasqueira de forma incompatível com o manual, isso também precisa ser considerado.

Heliel comenta

Eu tenho certa resistência quando alguém me pede garantia absoluta de que “não haverá fumaça”.

Não porque eu não confie no projeto.

Pelo contrário. Justamente porque levo projeto a sério.

Na engenharia, a gente não deveria prometer aquilo que não controla.

Eu consigo dimensionar vazão. Consigo avaliar velocidade no duto. Consigo calcular perda de carga. Consigo definir premissas de simultaneidade. Consigo orientar descarga, indicar condições de uso, sugerir acionamento, compatibilizar com PPCI e alertar sobre execução.

Isso é trabalho técnico.

Agora, garantir que nunca haverá retorno de fumaça em qualquer situação, independentemente de uso, vento, manutenção, alteração futura e execução, já é outra conversa.

O mercado às vezes gosta de uma frase bonita para colocar em reunião: “sistema garantido contra retorno”.

Eu prefiro uma frase menos bonita e mais correta: “sistema dimensionado para funcionar dentro das condições previstas”.

Essa diferença protege todo mundo.

Protege o cliente, porque ele passa a entender o que está contratando.

Protege a construtora, porque ajuda a separar projeto, execução, operação e manutenção.

Protege o condomínio, porque reduz a chance de uso inadequado depois da entrega.

E protege o projetista, porque deixa claro que responsabilidade técnica não é o mesmo que promessa absoluta.

Outra coisa importante nesse caso foi a interface elétrica.

Muita gente acha que o projetista elétrico só precisa saber onde ligar a máquina. Não é bem assim.

O tipo de acionamento muda o comportamento do sistema.

Pulsador individual na unidade costuma ser simples, direto e dá autonomia ao morador. Já o acionamento por interfone, portaria ou sistema centralizado pode reduzir acionamento acidental, uso fora de horário, reclamação por ruído e interferência causada por reformas internas.

Não existe uma única resposta para todos os edifícios.

Existe a solução mais coerente com o padrão de uso daquele condomínio. Para mim, a boa prática é decidir isso ainda na fase de compatibilização. Depois que a obra está pronta, qualquer mudança vira custo, retrabalho e discussão.

Para levar para a obra

Antes de prometer desempenho em sistema de churrasqueira, coifa e chaminé, eu recomendo organizar pelo menos três documentos ou conjuntos de informação.

O primeiro é o memorial descritivo, explicando o sistema, as premissas de uso e as condições consideradas.

O segundo é o projeto executivo, mostrando como o sistema deve ser executado, com dutos, equipamentos, passagens, interferências e compatibilizações necessárias.

O terceiro é o memorial de cálculo, registrando dados como vazão de exaustão, velocidade do ar no duto, perda de carga e critérios adotados.

Quando houver interface com PPCI, passagem por lajes, selagens ou fechamento com exigência de resistência ao fogo, isso precisa ser tratado com o responsável específico da área.

Não é detalhe de acabamento. Pode interferir na segurança, na execução e no desempenho do conjunto.

Também considero importante o Manual do Proprietário específico da obra. Ele não substitui projeto nem manutenção, mas ajuda a reduzir risco de mau uso, acionamento incorreto e reclamações que poderiam ser evitadas com orientação clara.

Para pensar

Antes de pedir uma garantia absoluta contra fumaça, talvez a pergunta mais útil seja outra:

Quais condições de projeto, execução, uso e manutenção precisam ser respeitadas para esse sistema funcionar como previsto?

Essa pergunta muda a conversa.

Em vez de procurar uma promessa bonita, ela obriga todos os envolvidos a olharem para o sistema completo. E, na prática, é aí que muitos problemas de fumaça começam ou deixam de acontecer.

Convite pra ti

Se você está em fase de projeto, compatibilização ou recebendo perguntas desse tipo em um empreendimento, vale organizar as premissas antes da obra andar.

Em sistema de churrasqueira, coifa e chaminé, o problema quase nunca está em uma peça só.

Heliel

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